Turismo organizado pela própria comunidade, com visitas pensadas para respeitar o território, a população local e a natureza. Este é o chamado turismo de base comunitária (TBC), que o Projeto Roteiro Caiçara quer fortalecer na Costa Verde do estado do Rio de Janeiro. O projeto completou seis meses em dezembro de 2025, concluindo o primeiro período de atuação, com formações e reuniões com as comunidades. Em 2026, tem início a segunda fase de atuação. 
Participam do projeto 12 comunidades caiçaras e quilombolas, sendo seis em Paraty ─ Saco do Mamanguá, Trindade, Parati Mirim, Praia do Sono, Ponta Negra e São Gonçalo ─ e seis em Ilha Grande, no município de Angra dos Reis ─ Bananal, Matariz, Aventureiro, Enseada das Estrelas, Dois Rios e Praia Vermelha.
Na Costa Verde fluminense, o TBC é protagonizado por comunidades tradicionais, como caiçaras, indígenas e quilombolas, com produtos e serviços geridos por indivíduos, famílias e coletivos. Mais do que uma proposta turística, esse caminho também nasce de uma história de resistência.
Desde os anos 1970, com a abertura da BR-101, cresceram as pressões de grilagem e especulação imobiliária sobre esses territórios. Hoje, somam-se a isso os desafios associados ao turismo de massa que, muitas vezes, concentra renda e aumenta impactos ambientais e sociais.
O projeto tem a duração total de três anos e atua em cinco frentes: capacitações para o turismo; obras de infraestrutura; manejo de trilhas; definição de roteiros turístico; e conservação da natureza.
Segundo a coordenadora do projeto, Bete Canela, o TBC é diferente do turismo de massa, geralmente promovido por pessoas que vêm de fora do território e empresas.
“Isso já existe. Mas o nosso projeto objetiva fortalecer quem está no território: as comunidades caiçaras, quilombolas, que estão ali há muito tempo e que oferecem serviços turísticos. Então, essa quarta linha do projeto é justamente fortalecer esses roteiros”, diz.
Canela defende que, ao mesmo tempo que promove o turismo, o projeto valoriza culturalmente a região. “Porque, à medida que a gente fortalece o turismo de base comunitária (TBC), ele é um turismo que não oferece só o quiosque, que não oferece só o caminho da praia, que só vai na cachoeira mergulhar. Ele conta a história do lugar, ele conta as tradições, a culinária, o artesanato. Então, tudo isso que é local, que as pessoas têm essa riqueza de saberes, isso entra também no projeto”.
Planejamento
O Projeto Roteiro Caiçara engloba, ao todo, seis períodos, ou três anos de atividades, com foco no turismo de base comunitária, conservação ambiental e valorização cultural das comunidades tradicionais de Paraty e Ilha Grande.
O projeto é realizado pelo Instituto Caminho da Mata Atlântica (ICMA), cuja missão é engajar a sociedade na conservação e recuperação da Mata Atlântica, por meio de atividades ao ar livre e da conexão de áreas naturais ao longo de uma trilha de longo curso, promovendo o desenvolvimento socioeconômico inclusivo, a conservação da biodiversidade e a valorização do patrimônio natural e cultural.
Canela enfatiza que, como uma das linhas de atuação, o projeto prevê obras que ficarão para as comunidades. “Por exemplo, tem comunidades que querem reformar um pier, por onde chegam os turistas, e precisam desse recurso. Outras querem fazer um centro de atendimento ao turista, porque não têm. Os turistas chegam na comunidade e não sabem exatamente quem procurar”, explicou a coordenadora.
Cada comunidade, segundo ela, está levantando possibilidades de obras que estejam relacionadas com o turismo, para as quais o projeto pode ajudar a financiar a construção. “Essa é uma parte bem legal, porque é um legado físico. Uma coisa diferente dos projetos que passam por aqui”.
Resultados
O primeiro período de atuação, iniciado em julho, contou com cursos para os primeiros guias turísticos locais. Foram iniciados três cursos de Formação Básica para Condutores Ambientais, sendo um em Trindade, em Paraty, com 42 participantes, e dois módulos realizados de um total de cinco; e dois cursos na Ilha Grande, sendo um na Enseada das Estrelas, com 23 participantes, e outro na Praia de Bananal, com 15 participantes, com um módulo realizado em cada local. Esse é um curso mais compacto, com quatro módulos no total.
As ações realizadas pelo Projeto Roteiro Caiçara no primeiro semestre de 2025 envolveram também 12 reuniões comunitárias para apresentação do projeto e 12 reuniões comunitárias para planejamento das obras de infraestrutura para o turismo e apresentação das equipes de fauna e flora, efetuadas em Paraty e na Ilha Grande; cinco reuniões para planejamento do monitoramento de flora e duas voltadas ao monitoramento da fauna, em Paraty; duas reuniões para mapeamento e formatação de roteiros turísticos na Ilha Grande; e cinco reuniões com arquitetos para planejamento das obras de infraestrutura em Paraty. As ações reuniram até o momento cerca de 260 pessoas.
O projeto conta com patrocínio da Petrobras, através do Programa Petrobras Socioambiental, e começa, no primeiro semestre de 2026, seu segundo período.
“A gente já iniciou o curso de condutores ambientais em Paraty e na Ilha Grande, que formam turmas de 40 pessoas a cada vez, para as pessoas terem a carteirinha, serem credenciadas e trabalharem como guias de turismo. Muita gente que está nesses locais e já fazia isso de maneira informal agora vai poder ter o curso, a carteirinha e trabalhar de maneira formal”, disse à Agência Brasil a coordenadora do projeto, Bete Canela.
O que é Turismo de Base Comunitária?
Por Turismo de Base Comunitária, ou TBC, entende-se o turismo com protagonismo local, com renda e decisões oriundas do próprio território e visitação organizada para respeitar comunidade e natureza.
O TBC é uma forma de receber visitantes na qual quem vive no território é que toma as decisões, cuida do planejamento e organização, e conduz a atividade turística, englobando passeios, hospedagem, alimentação, trilhas e vivências culturais.
Conforme explicou Bete Canela, a prioridade é não interferir nos modos de vida tradicionais, além de garantir que a visitação gere benefícios reais para a comunidade, valorizando a cultura local e cuidando do meio ambiente.
Na prática, o TBC busca três coisas simultaneamente:
- distribuir melhor os benefícios do turismo, mantendo a circulação de renda na comunidade e fortalecendo negócios locais;
- valorizar cultura e saberes, sem transformar a identidade do lugar em produto, o que significa que a comunidade define o que quer compartilhar e de que forma;
- e reduzir impactos e cuidar do território, porque a atividade é pensada com regras, limites de visitação e condutas que protegem a natureza e a qualidade de vida de quem mora no local.
Em áreas de alta sensibilidade ambiental, como territórios inseridos em unidades de conservação, isso costuma caminhar junto com conservação, porque quem vive ali conhece profundamente o lugar e tem interesse direto em manter o ambiente saudável.
O turismo de base comunitária fortalece não só o território, mas a cultura que já existe naquele local há muito tempo, que é ancestral. Segundo Bete, a ideia é que as duas formas de turismo possam coexistir.
“Dá para todo mundo conviver”, afirmou.
Fonte: Agência Brasil


